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© 2014 Gilberto Gnoato

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violência psicológica e violência física entre casais

 

O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no planeta e espantosamente, mesmo com a sanção da Lei Maria da Penha em 2006, o assassinato de mulheres em nosso território cresceu 21% entre 2003 e 2013. Considere-se ainda que o homicídio é o último ato da violência, pois, para uma categoria específica de mulheres que, em nome do amor, convive por longos anos com o parceiro violento; estas são alvos constantes da violência física e/ou psicológica. O grau de tolerância ao sofrimento que essas mulheres mantêm na relação com o parceiro, torna-se um poderoso sustentáculo da manutenção da violência, pois, 49.2% delas voltam a ser agredidas pelo mesmo parceiro amoroso. (Este número refere-se apenas a vítimas que foram atendidas pelo SUS. Imagina-se um contingente muito maior de mulheres que não chegaram a ser encaminhadas a esse serviço de saúde). Trata-se de um tipo de violência em que a mulher possui um vínculo com o agressor.

 

Diferentemente da violência em que ela não tem nenhum relacionamento com o agente da agressão e é uma vítima indefesa, por exemplo, do assédio em via pública ou nos casos de estupro, apenas para citar dois exemplos, entre tantos outros. No entanto, quando as relações se estreitam na esfera íntima, a maioria das agressões físicas, 67.2%, é cometida por aquele que elas dizem amar ou que um dia amaram, ou seja; pelo parceiro, ou o ex-parceiro amoroso. Leve-se em conta ainda, que a violência psicológica, como a humilhação, a extorsão, ameaça, o controle, a traição, ocorrem quase diariamente na vida conjugal dessas mulheres.

 

A maioria das agressões físicas ou psicológicas,  71.9%, desencadeiam-se no espaço doméstico. Entendemos que nestes casos, a mulher não somente é vítima, como também é parte do problema. Nossa pesquisa concebe que esse tipo de violência é “relacional” e não dicotômica, como até então vem sendo tratada pela perspectiva sociológica da corrente patriarcal: Eles dominantes, elas dominadas. Ou, ainda, pelas políticas públicas que se utilizam da analítica jurídica para reafirmar a posição de que eles são unicamente culpados e elas exclusivamente vítimas.

 

Nossa amostra de pesquisa abarcou centenas de casos de mulheres de classe média que não dependem financeiramente de seus parceiros. Até o início dos anos noventa, os estudos feministas se concentravam em analisar o fenômeno entre mulheres de baixa renda. No entanto, nos perguntamos, por que mulheres com nível superior, instruídas, politizadas, cientes de seus direitos protetores e que não dependem financeiramente do companheiro e, em muitos casos, chegam até a sustentá-los; permanecem convivendo em situação de risco, por longos anos, com um parceiro violento?

 

O pesquisador é psicoterapeuta e professor universitário e trabalha há mais de 20 anos com o sofrimento feminino, especialmente com mulheres que suportam o impacto das várias faces da violência no relacionamento amoroso. Durante quatro anos ele analisou centenas de casos de violência entre casais para concluir sua tese de doutorado em 2017 na Universidade Federal do Paraná. Seu foco de pesquisa incide sobre a violência que não aparece no corpo da mulher. A violência discursiva causada pela depreciação verbal, pela humilhação, insultos, pelo ciúme e o controle obsessivo do parceiro ao longo do relacionamento.

 

A pesquisa procurou analisar a existência de uma correlação entre a permanência dessas mulheres no lugar do sofrimento, com a violência perpetrada por seus companheiros. Trata-se de uma complexidade paradoxal entre a dor e o amor. Essa categoria de mulheres parece sentir com mais pesar a violência psicológica contra seus sentimentos do que a agressão física contra o seu corpo. Acabam utilizando-se da tolerância e do perdão como forma de recuperar o amor que tanto desejam manter.

Um dos grandes equívocos dessa categoria de mulheres é imaginar que o amor que elas sentem pelo companheiro, um dia os transformará no homem que elas imaginam.   Elas não amam o sujeito de carne e osso, mas uma representação do amor; um discurso amoroso. Logo não conhecem o parceiro com quem convivem. O homem que elas dizem amar é também o mesmo que as faz sofrer.  

 

Outro equívoco recai sobre a crença na existência do “verdadeiro amor”. Não só, ele não existe, como não existe uma única forma de amar e muito menos o amor está fora da nossa identidade. Não é uma essência fora do sujeito, pois as pessoas amam, por meio daquilo que elas são. Nesta lógica, um homem violento amará de forma violenta. Uma mulher tolerante, amará seu marido com a tolerância de uma mãe que ama o próprio filho.

 

A pesquisa também alisou os aspectos histórico-culturais da sociedade brasileira, cujos “dispositivos” culturais, imprimem no casal as condutas amorosas, as condutas sexuais e sobretudo o exercício machista. Este, é um dispositivo que atinge a todos e a todas, pois as práticas e o discurso machista não pertencem apenas aos homens. O machismo é falado e praticado no Brasil, por um imenso contingente de mulheres; até mesmo por algumas correntes do feminismo radical.

 

Concluímos também que enquanto essas mulheres não entenderem por que ficam no lugar da dor e qual é a sua parte nessa complexa e contundente relação, estarão sujeitas a repetir uma escolha amorosa que as levará mais uma vez ao sofrimento.

Assumir sua parte, não significa assumir culpa e sim compreender quais são as tramas que tornaram tais mulheres, dependentes do “amor-paixão”. Um tipo de amor que gera sofrimento, pois, o medo da perda de quem amam é tão intenso quanto a força do próprio amor. 

 

Esse longo trabalho tem portanto o objetivo de dar uma saída para as relações conturbadas entre casais que necessitam de atendimento psicológico. Apenas condenar o agressor e culpar o homem não libertará a mulher do seu sofrimento.

 

OBS: Além de professor universitário e psicoterapeuta, Gilberto Gnoato mantém uma comunicação com a sociedade por meio do blog gilbertoresposnde.com.br e também é comentarista do Programa Light News da rádio Transamérica Light FM, 95.1, todas as quartas feiras, das sete às oito. Outra via de contato é pelo whtsapp 99922-1920 ou pelo e-mail ggnoato@onda.com.br

RESUMO TÉCNICO DA TESE

GNOATO, Gilberto. Análise do discurso feminino entre casais violentos na cultura da agressão. 2017. 255 f. Tese de Doutorado.

 

Este trabalho de pesquisa tem como objetivo fundamental a análise relacional nos estudos de casais violentos, propondo-se a interpretar especificamente as construções discursivas de mulheres de classe média, com ensino superior e autonomia financeira que, mesmo sendo alvo de violência física e psicológica, permanecem por longos anos convivendo com seus parceiros íntimos. Optou-se por esta categoria de mulheres, pelo vácuo existente nos trabalhos que investigam este tipo de população, já que a maioria dos estudos sobre o fenômeno enfoca mulheres de baixa renda, justificando que a dependência econômica feminina como resultante da vinculação ao poder patriarcal.

 

Quanto ao corpus de pesquisa, esse advém dos relatos de mulheres alocados no site eletrônico <wwwgilbertoresponde.com>. Trata-se de relatos sob forma de perguntas que procuram uma saída para o sofrimento amoroso. O site eletrônico é concebido pelas usuárias como uma plataforma de autoajuda. Também foram acrescentadas ao corpus, duas outras análises. O estudo de caso da autobiografia de Oliveira (2011) e uma entrevista com sete participantes do grupo de “Mulheres que Amam Demais Anônimas” (MADA), de 2016. Com o propósito de produzir conhecimento para a aplicação prática, dirigida à solução de problemas encontrados na realidade cotidiana, optou-se pela modalidade de trabalho denominada de Pesquisa Aplicada (BARROS; LEHFELD, 2000; GIL, 2002). Foi usado como método e referencial teórico a Análise de Discurso segundo Foucault (2012; 1986). Em relação ao escopo teórico, esta pesquisa guiou-se pelo diálogo entre a Antropologia, a Filosofia da Linguagem, a História, a Sociologia e contribuições da Psicanálise. A violência dos casais é analisada pela perspectiva dialógica-relacional de Santos e Izumino (2005), tendo como um dos objetivos problematizar o dualismo de certos discursos feministas que concebem a violência como sendo um produto originário e exclusivo da masculinidade. As antropólogas Gregori (1993) e Machado (1998), por exemplo, substituem a polarização da violência até então unilateralmente atribuída aos homens para uma forma relacional de se compreender o fenômeno, por intermédio do estudo de “casais violentos”. Sobre o machismo, adotamos a premissa da psicóloga Castañeda (2006) de que nem o machismo é um discurso exclusivamente dos homens e nem a violência um produto exclusivamente de um dos polos da relação ou do indivíduo particularizado. Violência e machismo não são apenas práticas concretas.

 

Trata-se de um longo processo de socialização microscópica da “dominação simbólica” do homem Bourdieu (2009, p. 138). A violência entre casais não está localizada em um único lugar e/ou indivíduo, mas sim endentada no que Foucault (1982, p. 244) define como “dispositivos”. Selecionamos do corpus de pesquisa três dispositivos que alimentam a violência. São eles, o dispositivo de “amor-paixão” em Rougemont (1988), de sexualidade e de machismo.  Esses dispositivos encontram uma fértil reverberação na seara de uma sociedade tremendamente violenta, emotiva, hierárquica e paradoxal como é o Brasil (DAMATTA (1987; 1990; 1993). Partimos também das contribuições teórico-políticas de Foucault (1982) sobre o poder para entendermos a violência enquanto uma “microfísica da violência” (FANINI, 1992; FOUCAULT, 1982;1984).

 

Alguns dos resultados deste trabalho dão conta de que os argumentos da baixa renda e da falta de conscientização política das mulheres vítimas de violência orientaram boa parte das pesquisas feministas nos anos de 1970 e 1980. No entanto, atualmente, sabe-se que a violência contra a mulher “não se origina exclusivamente das desigualdades de classe” econômica, conforme Heilborn e Sorj (1999), nem da falta de consciência política e tampouco da sua condição financeira, considerando os intensos avanços da mulher no campo do trabalho e da vida pública. Pesquisas como Grossi (1991), Gregori (1993), Santos e Izumino (2005) relativizam as práticas de atendimento a mulheres espancadas nos anos de 1980, pois alguns grupos feministas da época que atendiam a mulheres vítimas de agressão, concebiam a violência, restringindo-a muitas vezes à uma produção masculina, quando ela é na realidade um fenômeno macroscópico da cultura da agressão.

 

Outro aspecto a salientar sobre o atendimento a vítimas da violência e sobre as pesquisas feministas é a pouca importância dada ao discurso do amor-paixão (ROUGEMONT, 1998). As mulheres esperam muito do amor (BOURDIEU, 2011, p. 82-83) e dependem mais dele do que esperam os homens. Se elas são prisioneiras da lei do amor, eles estão presos à virilidade e à violência como uma “carga” nos termos de Bourdieu (2011, p. 64) destinados a carregá-la. Entende-se que, entre casais violentos, é tão difícil para a mulher desocupar o lugar da vítima, como é para o homem, sair do lugar da violência.

 

Palavras-chave: Cultura da agressão. Relações de Poder. Feminismo. Discursos sobre o Feminino e o Masculino. Análise do Discurso. Amor-Paixão. Machismo. Sexualidade.