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© 2014 Gilberto Gnoato

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GILBERTO GNOATO:

É doutor pela Universidade Federal do Paraná, onde desenvolveu uma pesquisa sobre a violência nas relações amorosas. No seu  mestrado em Psicologia da Infância e da Adolescência pela Universidade Federal do Paraná (2004),  analisou  a relação da violência com o  mundo da rua. 

É especialista em Psicologia Clínica, Psicologia Social e em Antropologia, pela UFPR.  

Possui vários projetos nas áreas de Cultura ,  Sociedade e Comunicação, além de 20 anos de experiência como psicoterapeuta e professor universitário.

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Papai Noel apedrejado

19.12.2017

 

Quem se incomodaria tanto com o Papai Noel ao ponto de desejar sua destruição? Talvez, radicais religiosos que no passado viam nele a imagem de um mito pagão. Talvez ideólogos da militância socialista atormentados pela compulsão popular às compras de Natal.  Um exemplo deste incômodo consumismo que devora ricos e também pobres, encontra-se no inconformismo da música “Papai Noel filho da puta”, da banda punk-rock, “Garotos Podres” que acusa o pobre e   benevolente velhinho, de ser um burguês capitalista. Outra categoria de pessoas que também não se consola com a presença inofensiva e carismática desse ser vetusto e feliz, é a do biólogo ateu, Richard Dawkins Ele é uma dessas pessoas que combate a religião (ver do autor, “DEUS, um delírio) e qualquer espécie de doutrinação infantil, seja ela pelo credo religioso, político ou pelas superstições populares. Para convencer os pequeninos, sobre a invenção do Papai Noel, Dawkins, calculou que ele precisaria voar mais rápido que a velocidade do som (ultrapassar os mil duzentos e quarentas e seis quilômetros por hora) para entregar todos os presentes prometidos, numa só noite.

 

Bem antes do ateísmo de Dawkins, no século XVIII, os filósofos franceses também conspiraram para elaborar um projeto que pudesse varrer da mentalidade ocidental as crenças religiosas e as superstições, vistas como uma peste entrevada no saber iluminista. O papai Noel continuou sendo o bode expiatório dos paranoicos. Mais recentemente, em meados do século XX na França, sua réplica foi queimada na presença de 250 crianças, por ordem de alguns religiosos que o perseguiram, como os hereges foram perseguidos pela inquisição, na Idade Média.

 

Contrariando os delírios de perseguição, escudados pela “teoria da conspiração”, o Papai Noel não é uma endiabrada maquinação do capitalismo e nem a figura benevolente daqueles que enxergam no Velhinho a personificação generosa de Jean Jacques Rousseau, acerca da bondade humana. Papai Noel é parente do Bicho Papão, do Homem do Saco, da Cuca, do Boi da Cara Preta e de uma quantidade imensa de personagens que se vestem de forma exótica ou sobrenatural, em diferentes tempos, nas diferentes faces da Terra, onde nem o cristianismo e nem o capitalismo sequer deram a graça da sua presença.  O Velhinho é mais justo do que bom, pois sua função primordial é a justiça e não a bondade. Na análise do antropólogo Lévi-Strauss, (ver “O suplício do Papai Noel”), sua tarefa é “ajudar os mais velhos a manter a ordem e a obediência entre os mais novos”. No entanto, como já foi dito,  ele foi condenado pela Igreja francesa na festa de Natal de 1951, enforcado e depois queimado publicamente no átrio da catedral de Dijon. Tratava-se de uma réplica do Papai Noel, acusado de desvirtuar o espírito católico natalino.

 

Militantes da ignorância religiosa ou da ignorância política da revolução socialista chinesa e também de Cuba, ordenaram a queima, em praça pública, de livros subversivos e a destruição sumária de instrumentos musicais que ressonavam notas imperialistas, como o saxofone e violinos Stradivarius por, supostamente, representarem a cultura americana. Demonizar o outro é uma estratégia milenar que não cessa de arrebanhar a ignorância e a falta de talento de menos informados como os integrantes da banda “Meninos Podres” que afirmam Papai Noel ser filho de uma prostituta.

 

 O Velhinho é um mito que antecede a Revolução Industrial, o capitalismo e a burguesia. Mesmo a França, conhecida por sua repulsa à cultura americana, também comemora efusivamente o Natal. Curiosamente, em 2014, o espírito político francês de alguns ativistas, cedeu aos encantos do Natal. Embora a França seja um país laico e a constituição não permita manifestações públicas religiosas, 71% dos franceses apoiaram a tradição do presépio. A cerimônia que hoje leva o nome de Natal, antecede a fundação da América e aparece em outros rituais de sociedades arcaicas, com nomes diferentes, embora com o mesmo objetivo. O Natal é apenas um “sistema de trocas” de presentes, de objetos, de palavras, de sentimentos que consolida ritualisticamente, a união e a obediência entre gerações diferentes. (Ver “O ensaio sobre a dádiva” de Marcel Mauss).

 

 A versão atual do Papai Noel, segundo Lévi Strauss “é uma criação moderna, e ainda mais recente é a crença que situa sua morada na Groenlândia”. Um homem idoso, de botas e de barbas, o retrato da tradição, concentra num mesmo personagem, a benevolência e a justiça.    Pois, só ganha presente quem se comporta bem (comportar-se bem é fazer o que os adultos esperam). Trata-se de um ritual que transmite a autoridade dos mais velhos para os mais novos, pelo respeito àqueles e ao mesmo tempo pela obediência destes. Um rito de aliança que implica em presentear o mérito de cada um. No ocidente, o Natal é comemorado em 25 de dezembro, a fim de substituir e atrapalhar as festas pagãs que eram comemoradas em 17 de dezembro. A relação entre o mundo dos adultos e o mundo das crianças é mediada em diferentes sociedades nos mais remotos tempos, por rituais de obrigações e recompensas, sempre acompanhados de um personagem mítico. Dar presentes é uma maneira de fortalecer a esperança da vida, representada pelas crianças e afastar o medo da morte, representado por um velhinho de barbas brancas. A forma cristã de Natal, celebra o nascimento de Jesus, o mito de origem do cristianismo, bem como fortalece a primeira instituição humana: a família e a relação de respeito entre pais e filhos.

 

Mas, a quem mais o Papai Noel traria infortúnios? Confesso que fui tomado por uma perplexidade extasiante ao ler que no dia 13 de dezembro de 2017, em Itatiba (SP), o Velhinho foi insultado e apedrejado. Todavia, pasmem: As pedras e insultos partiram de crianças de 9 a 12 anos, moradoras do bairro que ele visitava. Revoltadas com o término da distribuição de balas, as crianças começaram a correr atrás do trenó e ao mesmo tempo que xingavam o barbudo de cabelos brancos de filho da puta, arremessavam as balas e pedras contra ele. A cena pode ser interpretada sob várias perspectivas. Trata-se de crianças famintas. Trata-se de crianças mal educadas. Trata-se de crianças que se revoltam com aqueles que se promovem com a pobreza, tal como os safaris sociológicos muito frequentes nas favelas do Rio. (Agora comunidades). Trata-se de crianças bem instruídas e que protestam contra o representante do capitalismo devorador. Também poderíamos dizer que trata-se do ateísmo infantil?

 

Prefiro defender a hipótese de que trata-se de uma perversão infantil plantada e fertilizada no terreno de uma sociedade psicopata. Tal como no filme “Cidade de Deus”, cuja cena final apresenta um grupo de crianças resultantes de uma geração violenta e estimulada por um ambiente de risco, que incorporou a delinquência, tornando-se pequenos assassinos. Contrariando a falta de informação do senso comum, uma criança pode matar, sim. Pode agir criminosamente como um adulto, sim. As perversões (termo usado pela Psicanálise para designar o que a Psiquiatria nomina de psicopatia), estão presentes também na vida infantil, desde que estimuladas pela cultura da violência, conduzidas por pais violentos em ambiente de risco e em muitos casos, pela predisposição genética, quando ela é enredada por esses fatores citados.

Nosso país não somente é um agressor de crianças, como nossa vida adulta conseguiu transmitir uma cultura da violência infantil. Mas, isto tem uma história, não apenas pelo aumento quantitativo da violência no Brasil, quanto pelo aprimoramento das perversões que a cada dia avançam e consomem as estruturas fundantes da nossa sociedade. A destruição dos ícones que sustentam a “autoridade simbólica” de uma sociedade, implica no seu próprio esfacelamento. Crimes até então inexistentes começam a manifestar-se, porque a obra finalmente parece estar acabada. Filhos que matam pais. Pais que esquecem filhos no carro. Pais que matam filhos. Criança morta em pia batismal e crianças que apedrejam o Papai Noel. Este, símbolo da aliança entre a velha e a nova geração. Entre aqueles que estão indo embora e os que começarão a construir o mundo. Ícone do prolongamento da vida, já que ele vem presentear o nascimento de um filho, cujos filhos revoltam-se contra o pai, apedrejando-o.

 

A autoridade simbólica pode ser encarnada por um professor, pelos pais, por um deus, um mito, de um herói, um ídolo, ou pelo significado materno.Entidades presentes em todas as sociedades. Elas representam no psiquismo infantil a lógica do corte, do limite e a internalização da lei e da ordem. Elas instituem a certeza de que algo acima de nós e que nos antecede, acerca da nossa tenra existência, tem a função de inscrever na criança o respeito pelo outro, conduzindo a criança a resignar-se com admiração perante aqueles que vieram antes; os mais velhos. No entanto quando essa autoridade simbólica é destituída, instala-se na criança a perversão. As leis não são significadas, as regras ignoradas, a autoridade desqualificada, os pais desrespeitados e o outro, torna-se apenas uma coisa, em benefício da psicopatia e do narcisismo.

Estas crianças apodreceram sua infância e adquiriram, semelhanças adultas aos “Garotos Podres”. Estes apodreceram também a sua vida adulta. Espantoso que as crianças do bairro Porto Seguro, de Itatiba, enquanto apedrejavam o Velhinho, xingavam a sua mãe de meretriz, tal como os garotos da banda que também acham que o Papai Noel é um filho da puta. E, não duvido que seja, em uma sociedade onde toda mulher é considerada uma puta.

 

 

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